sábado, 23 de janeiro de 2010

eu acredito


Antes de ontem eu assisti Hanami - cerejeiras em flor... e chorei. Chorei por muitos, chorei por todos e chorei muito. Ontem eu liguei para aquele grande amor de tempos dourados. De uma forma peculiar e que há muito tempo eu não vivia, me sentia bem. Me sentia bem comigo mesma, estranhamente inteira... e bem como há tempos não me sentia. Lá no fundo do meu ser uma intuição me dizia que ele também estava bem e que, de alguma forma, estávamos ambos finalmente inteiros em si e distantes do outro, porém o guardando com bem-querer dentro cada um. Era como se a cicatriz finalmente estivesse sendo curada... era como se as lágrimas finalmente estivessem libertando e deixando o outro seguir em paz.

Então eu liguei para dizer isso: você fez parte de minhas lágrimas... assim como tantos familiares e amigos queridos... porque Hanami é desses filmes que nos tocam bem ali, onde temos a certeza de que o amanhã e o outro podem simplesmente não mais existir. E nessa certeza, respiramos fundo e, ao sentir que vivemos com estas pessoas tudo o que tínhamos para viver, deixamos-na partir com uma lágrima emocionada e feliz. Nessa mesma certeza, também respiramos fundo e, ao compreendermos que hoje é que temos de viver, ganhamos força e fôlego para darmos tudo de nós àqueles que sabemos serem flores em botão que ainda temos a cultivar.

O tempo é mágico e sábio. A vida é insondável em sua profundidade e possibilidades infinitas. Nós fazemos parte de uma roda que gira em uma mandala eterna, uma mandala energética que segue regendo ciclos que se fecham e se abrem o tempo inteiro. Me sinto inteira para deixar ir o que finalmente sinto que me liberta para ser inteira para o novo.





Na existência não há ninguém que seja superior e ninguém que seja inferior. Uma folha de grama e a grande estrela são absolutamente iguais... O homem, porém, quer estar acima dos outros, quer conquistar a natureza, e por isso precisa lutar continuamente. Toda complexidade é fruto dessa luta. A pessoa inocente é aquela que renunciou à luta, que não está mais interessada em estar acima, que não está mais interessada em mostrar desempenho, em provar que é alguém especial; é aquela que se tornou semelhante a uma rosa, ou a uma gota de orvalho sobre a folha de lótus; que se tornou parte desta infinidade; aquela que se fundiu, se misturou e se tornou uma coisa só com o oceano, e agora é simplesmente uma onda; é aquela que não tem qualquer idéia do "eu". O desaparecimento do "eu" é a inocência.





Nesta imagem de folhas de lótus ao amanhecer podemos ver, pela ondulação da água, que uma gota acabou de cair. É um momento precioso, pungente. Ao render-se à força da gravidade escorregando da folha, a gota perde a sua identidade anterior e junta-se à vastidão da água que está embaixo. Podemos imaginar que ela deva ter vacilado antes de cair, na exata fronteira entre o conhecido e o incognoscível.

Tirar esta carta em uma leitura é o reconhecimento de que alguma coisa acabou, de que algo está se completando. Seja o que for -- um emprego, um relacionamento, um lar que você amou, qualquer coisa que possa tê-lo ajudado a definir quem você é -- é hora de deixar isso para trás, permitindo qualquer tristeza que surja, mas sem tentar se agarrar ao que se completou. Alguma coisa maior está esperando por você: há novas dimensões a serem descobertas. Você ultrapassou o ponto a partir do qual não há volta, e a gravidade está cumprindo a sua função. Não resista: isso significa libertação.


8 comentários:

Raphael de Souza Araujo Lima disse...

que olhos ourozos!
da para imaginar o gozo de existir na essência de tal vista?
o olhar de um amigo, de um cristo, de um buda, de um eu, um ele, uma ela e todos nós nesta biela cósmico rebolando estrelas enquanto alguém chora as perdas do Haiti e a esperança de um mundo melhor.
No coração sinto saudades de uma HARMONIA que só existe sei lá aqui agora aonde...

Raphael de Souza Araujo Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bela disse...

tEXTO MARAVILHOSO, PARABENS!

Victor Jabbour disse...

Lígia, querida...

Acho que dentro do que tento imaginar há tempos, das ideias que venho compondo na minha cabeça, sonhava em escrever o que você expôs, com toda essa força, de maneira maravilhosa.

Mas, me faltaram palavras. Você encontrou todas as elas. O exemplo, a situação, o desenvolver...você encontrou tudo.

Acho que cabe a mim agradecer pela chance de trilhar um caminho com pessoas que completam meus pensamentos e, mais do que isso, acrescentam ideias mágicas justamente onde tenho grandes falhas.
Sou afortunado!

Obrigado por existir!!

Bjoss! Paz!

Lígia Aggio disse...

aqui estou escrevendo em agradecimento profundo por todas as palavras dedicadas com carinho e atenção!

também escrevo para esclarecer que o texto contido nos três primeiros parágrafos, antes da imagem dos olhos, são palavras minhas, de minha experiência e leitura de vida...

porém, as palavras que se seguem a partir desta imagem têm fonte no Tarô Zen do Osho. Em resumo, são palavras do Osho. A imagem da folha de lótus com a gota que cai é justamente a imagem da carta "Deixando ir", arcano menor número 8 do domínio das águas, que corresponde ao domínio das emoções, o mesmo simbolizado pelo naipe de copas, coração, no baralho tradicional.

Então, escrevo aqui em eterna gratidão à essa força, essa ciência, esse oráculo que é o Tarô Zen do Osho. Agradecendo também esses irmãos com os quais posso compartilhar em sintonia e harmonia este estudo precioso.

OM
PAZ
AMÉM

Helena Erthal disse...

Lígia,
Que esse texto maravilhoso consiga abrir a percepção de muitas pessoas! Ele é transformador por esclarecer que precisamos nos tornar "parte desta infinidade", desse todo que interdependemos, e deixarmos nosso ego dentro dos limites cabíveis, que é o da originalidade de cada ser.
obrigada por iluminar meu dia!

abraços

Lígia Aggio disse...

eu é que agradeço por poder compartilhar e receber retornos tão positivos! Muito agradecida, Helena... seja sempre bem-vinda, aqui também é sua casa!

beijos

óli de castro disse...

que lindíssima - e dolorosa - lição, Lígia...
obrigada!